22 de abril de 2014

Crônica das 4 da manhã


Era somente um bar,
Uma boca
E um copo.

Tudo que sobrava na quarta grave badalada do relógio que ficava escondido no canto da parede, como se não quisesse se mostrar as pessoas que frequentavam o velho bar e lembrar-lhes das suas responsabilidades que viriam logo mais, junto com a luz do dia. O ambiente não mostrava nada além do que habitualmente era encontrado em um lugar daquele tipo. Copos cheios, pessoas matraqueando umas com as outras, garçons andando de um lado para outro mantendo as pessoas ocupadas e satisfeitas e um cheiro de óleo velho fritando qualquer coisa que fosse. Era um ambiente comum, com pessoas comuns, com conversas comuns.

Era só uma boca,
E um copo.

Cada gole gelado que descia pela garganta levava o pouco que sobrava de tristeza e preocupação embora, junto com o pouco dinheiro que ainda restava. E esse sim diria a hora que se deve partir, não o velho e ignorado relógio da parede. O garçom era impassível quando faltavam apenas alguns trocados, e não haveria argumento que vencessem suas regras. As pessoas saiam sorridentes em grupos, casais se aninhavam uns nos outros trocando carícias enquanto iam até a porta, amigos repetiam trechos de musicas que eram, ou foram, sucesso e que tocaram na radiola do bar. Todos voltavam a uma vida que tinha fugido horas antes, fugido de seus terrores, obrigações, causas, responsabilidades, famílias. Cada coisa que havia ficado para traz esperava por seus donos na porta, logo após o pagamento da conta. Os demônios esperavam pelas mentes que viriam descansadas e prontas para enfrenta-los. E como em uma dança de salão, uma valsa, sincronizada inconscientemente por todos os presentes eles saiam em ordem, um a um, ordenados apenas pela sequencia dos papeis que lhes eram entregues e lhe levavam ao balcão. Um novo mundo lhes aguardava, e lá, todas as coisas em comum que haviam dividido desapareciam e lá, eles se tornariam cães territorialistas e sem coração, lutando em um mundo cruel, de forma cruel, contra inimigos cruéis. Tudo era justificado como sobrevivência além daquelas paredes.

Era só uma boca.

E nela se perderam beijos.
E nela se acabaram cigarros.
E nela se teceram mentiras.
E nela se formaram promessas
E nela se afogaram bebidas
E nela se cantaram tantos refrãos quanto a radiola de moedas sabia cantar

Era só uma boca, que ia a um copo, em um bar, as quatro da manhã.

E no fim das contas o mundo também me chamaria de volta as garras cruéis da realidade, e tudo que viria com ela, destruindo toda a fantasia que eu tentava todas as noites recriar, na esperança de que o relógio jamais batesse as quatro e um.

Espero que tenhas gostado do que o vento me soprou

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